O pequeno segredo da nossa estrada

A humildade é uma cachoeira ao contrário.

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. Ithalo Furtado

Dois Lados

Toda porta tem dois lados vazios
Do lado de dentro a espera
do lado de fora o que ainda não se viu

Na boca, o perfume inodoro do beijo
e no corpo, o carinho se fez arranhão
Na taça de vinho, sozinho o desejo
implorava meu senso sedento por chão

No lençol o laço da louca apatia
do que a gente sentia por convenção
Descobri que é inútil ser bela a poesia
se mesmo bela, a flor não sobrevive na mão

Por que será que o lábio
quando outro lábio toca
não se torna um lábio só?

Deve ser como a sepultura
de um lado o mundo inteiro
e do outro lado o pó

doislados

. Ithalo Furtado

Desafeto

Eu sou a palavra que canto
e o verso de encanto que, por hora, recito
Pareço recanto de sonhos
mas, sou desafeto do que acredito

Eu sou a pintura no canto da sala
a imagem mais clara do que desentendo
Acho que senti suave na cara
o invisível tapa do vento

Eu tenho a malícia, eu tenho a pureza
de quem não suporta o peso do devir
Pareço mistura de um desavesso
A grandeza das coisas que não posso medir

Eu sou a batalha e a paz que conforta
nas horas que o mundo desapercebe o perdão
Acho que fundo, sozinho no peito
Perfeito e covarde bate um coração

recito

. Ithalo Furtado

Quando o amor acorda

sol

Poesia Diária

Sobre tua cama eu derramei todas as estrelas
Sob os teus sons eu fiz o nosso jantar
Nossa manhã mais perfeita, nosso sonho em comum
Sua cara de sono no espelho, suas palavras sem sentido algum

Se você não levantar, eu levarei até você
Qualquer montanha, qualquer estranha vontade
Levo o café na medida certa pro seu paladar
Prove o doce sabor dos nossos dias

É necessário não ter necessidade pra ser de verdade
Explicações são fardas que deram às nossas vontades
Somos tão sem querer e somos pra sempre
Enquanto existir eternidade dentro da gente

Somos todas as poesias da infância
que se perderam em provas de redação sem importância
Éramos um pro outro e hoje somos assim
Perdão e pecado, hóstia e gim

É preciso ter a leveza necessária
Pra viver nossa poesia diária…

Sob os meus cuidados te confinarei
como dois cavalos-marinhos longe do mar
A gente é tão certo de tudo e acha normal
ter medo de carinho quando ele é real

aa

FIM

Abri as janelas mais cedo
Deixei o sol te acordar
Escrevi as mais belas poesias
Entre as sobras e os restos do dia

Juntei nossos pedaços perfeitos
Eu juro que dessa vez montei o quebra-cabeça direito
Uma imagem só, tão viva
A mais plena paisagem, o quadro que retratava a nossa viagem pela vida

Pela imensidão do mar
Pela imensidão de nós
Será que os monstros que vamos criar
serão páreos para os nossos heróis?

Como pássaro, virá meu sossego
Em um vôo calmo e sereno, quase um sopro de Deus
Como pássaro, irá meu destino
Procurar outro coração igual ao meu

E como beleza, você virá pra mim
Como incerteza, como o mar que não tem tamanho
Já medimos nosso começo com carinhos quase infantis
mas, eu queria descobrir no escuro de tudo qual o tamanho do fim…

janela

A LINHA DA VIDA

Minhas virtudes são restos do vão
que eu não pude mostrar quando me vi só no vazio da razão
A gente é tão maior que todo senso, que todo pretenso motivo
que, aos gritos, nos faça soltar as mãos
que nos deixe perdidos na dependência de outro perdão

Escrevi no papel todas as palavras que me lembram você
Saudade, poesia, vontade, vida, dor e prazer
O que me faz ficar bem há muito tempo eu perdi pelo chão
Acho que ser você mesmo é obedecer ao sopro que vem do coração

Me leva pra casa de barco
Seja por terra ou em um mar imaginário
Faça-me sempre carinho aos cabelos quando chegar
e na despedida, deixe-me saber que amanhã será mais um dia pra eu me encantar

Meus defeitos são sobras de tudo
que findou quem eu sou no meu dia-a-dia absurdo
A gente é tão sozinho e tão maior que qualquer solidão
Simplicidade é um berço
A gente pode ser bebê, por que não?

Somos um bom motivo para queimarmos a mesma chama
Somos doidos varridos desse hospício chamado cama

Me leva pra casa de trem
pelos caminhos que não passam ninguém
Pra me fazer feliz é tão simples se você insistir
na idéia mais louca e no sentimento mais puro
que não seja pra sempre, mas, verdadeiro a cada segundo

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MANHÃ

Quando o lençol não cobrir
tua nudez ingênua por descuido
e o frio, por instantes, te fazer tremer
meu corpo estará quente o bastante pra te proteger

Quando o tempo for contra o nosso ritual
de se amar sem pecado na nossa rotina animal
e se eu te notar meio sem saída, com medo de tudo
meu corpo estará forte o bastante pra ser teu escudo

Você se espreguiça e olha pro lado
pra vê meu sorriso sem graça
levanto e preparo o nosso café
você me traz seu açúcar, me causa arrepios pela nuca
e com tuas manias no sono me faz ficar de pé

De repente, outro arrepio, um vicio do meu coração
que se acostumou com teu jeito esquentado
e teus pedidos de perdão

Perdemos nosso setembro como dois estranhos
somos do tamanho do mundo que construímos sem querer

No nosso castelo de papel e isopor
que nos protege com perfeição de qualquer rancor

E toda manhã parece mágica
quando a gente percebe que está tudo bem
apesar de todo o peso do dia e de tudo mais que nos cansa
é a poesia que sempre nos alcança

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A todos aqueles que se imaginaram acordando ao lado de alguém especial, nem que seja por apenas um dia, meus sinceros votos de eterna felicidade, que se não for pra sempre, que seja verdadeiro enquanto houver eternidade.

. Ithalo Furtado

Santafé

Eu, que sempre acreditei na força da vida
tenho para a minha um plano infalível:
“Eu só preciso da beleza de um sonho
para superar a grandeza do impossível”

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. Ithalo Furtado

Alguém

Eu quero alguém pra dividir
a poesia silenciosa da vida
abstrair do mundo a mais bela melodia
e cantar essa canção todos os dias

Eu quero alguém que me seduza
e transforme tudo a minha volta sem querer
que saiba entender minha revolta
sem ter a menor obrigação de me entender

E que tudo aconteça na mais imperfeita normalidade
numa mistura perfeita entre “pra sempre” e “de verdade”
Que tudo aconteça quando eu não souber de nada
Como se de um deserto a gente fizesse nossa estrada 

Eu quero alguém que ria do meu medo
e me faça provar as coisas mais sem lógica
Alguém que não me dê certeza de uma vida boa
Que seja diferente de qualquer pessoa

Eu quero alguém inseguro, imaturo
que eu brigue por ser tão infantil
Alguém que me dê o mais vadio dos beijos
Que saia feito um louco na madrugada atrás dos meus mais impossíveis desejos

E nas noites de frio não me deixe mais frio
E nos dias de chuva seja meu sol
E em todas as vezes que eu me perguntar “por que eu?”
Me responda apenas que não existe explicação

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Incomum

Eu não sei, às vezes tudo parece tão incomum.

Sim, por que comum era o teu perfume na minha mão depois que afagasse o teu rosto numa tarde triste.

Comum era o teu sorriso na minha estante e a tua lágrima na minha lembrança.

Comum era o teu sonho preso a minha luta para que você nunca deixasse de acreditar nele, como a loba que protege todos os seus filhos.

Comum era o simples fato da tua presença a centímetros pra me fazer alguém mais completo.

Comum, o que era mesmo comum?

Ah, comum era a tua luz, a tua sombra me seguindo pra onde quer que eu fosse, mesmo que para um poço sem fundo, pois, eu sei que você estaria lá, com sua pequenina mão me puxando para o teu céu, onde o sol sempre impera nos dias que a tempestade domina toda a minha alma.

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O Passageiro

Na hora, lembrei de um primo que dizia ouvir vozes quando andava sozinho em seu Vectra azul. Estranho. Sim, porque antes de entrar no carro, antes mesmo de pensar em abrir a porta, era nítido que não havia qualquer ser cristão fazendo análise com o nada sobre sua claustrofobia por sobre aqueles bancos já maltratados do meu velho Monza.

A angústia, então, de que me vinha? De muletas ou em um trem bala? Me peguei pensando se ela demorou demais a chegar na minha vida ou se naquele exato instante ela veio rápida demais. Então, muletas ou trem bala? Que tolice a minha perder tempo com a velocidade das coisas, como se a vida trabalhasse dentro da nossa ansiedade. Pensei no someliê de logo mais, que vinhos traria pra mim se eu conseguisse chegar ao final da rota que, cuidadosamente, tracei na minha cabeça que faria assim que terminasse meus afazeres?

Pensei nas moças pintadas da 15ª esquina mais a frente. Que gestos elas fariam e que obscenidades usariam dessa vez quando eu passasse devagar para arrancar suas provocações tão cheias de maquiagem, escondendo uma face de dor e necessidade? Pensei nas pessoas que trafegam nas calçadas, pensativas e engraçadas, que, quando observadas de longe, parecem dignas de uma comédia da vida real, ainda mais na cidade, esse cinema cheio de filmes sem final feliz.

 

42-19141460

 

A Cidade é um Cão Guia

Segue o cego pela estrada seca
Levando no sorriso o sol e a primavera
Construindo universos
Ao redor de sua mente cansada
De tanto tatear estrelas no escuro

Segue o cego pela Pinheiro
Cego pelos olhos de luz dos monstros de metal
Cego pela nebulosa de informações
Segue o cego pela via errada
Pela vida torta
Mais uma vez

Ele pede perdão
Ao mendigo
Deus das calçadas
Ele pede ajuda
E grita seu grito rouco
Para cada santo da igreja
E para cada ladrão do mercado
Segue o cego desnorteado
Pela vida errada
Pela via torta
Mais de uma vez

E quando o dia se finda
Ele senta no chão batido do mundo
E escreve seus versos tortos
A fim de escapar pra sempre
Pela estrada do infinito
A fim de exilar seu corpo cansado
De toda a paranóia do espírito

Ele libera o espírito
que tanto o aflinge
E une versos
E une versos
E une versos

Segue o cego a cantar uma canção…

cegueira

Vírgula

Vírgula é o sinal vermelho mais rápido que existe
na avenida da frase, entre as ruas das palavras que nos confudem e se completam a todo instante
Um instante de pausa, uma pausa no insistente diálogo com si mesmo
um duelo entre a fala, a calma e o silêncio
Vírgulas são lágrimas dispostas nas mais belas palavras do livro,
da bula de remédio, do aviso na geladeira
e nos fazem parar por segundos pra que a gente nunca perca o encanto
nem de admirar a palavra seguinte nem de lembrar com carinho da que já passou
Tudo isso, em um imperceptível espaço de tempo
quase um sopro do mais imperfeito verbo
da intensidade do advérbio, do veneno mais morfossintático
Vírgula é a ponte entre a falta de sentido e a continuação dessa falta
é uma busca ilusória pela explicação de tudo que já se leu até aquele exato segundo
como se a vida fosse um dicionário de todas as pessoas do mundo 
Embaixo dessa ponte, corre um rio de dúvidas
são nossos pés que permanecem imóveis, inversamente proporcionais a nossa imaginação
que voa parada, tão livre e tão perfeita
como um beija-flor que exala seu mágico brilho pelos jardins do nosso coração
Sempre que me deparo com uma vírgula
é como se uma borboleta pousasse sobre os meus lábios
e eu entrasse em transe profundo e perdesse todos os meus sentidos
Vírgula é o destino dos nossos olhos quando eles se espantam
com a presença quase que silenciosa daquilo que mais nos provoca dúvida
quem sabe, se houvessem vírgulas também entre as letras
as palavras não seriam um pouco menos confusas?
Vírgula é perdão e pecado literário
entre aqueles que devoram rápido e aqueles que degustam com cuidado
qualquer tipo de leitura ou retalho
das palavras tortas que a gente escrevia quando criança
Vírgula é senso, é loucura, é a cama do oito quando ele se deita
Vírgula é o assassinato da pressa, é a prece pelo futuro e a intenção de sempre estar ligado ao passado
Vírgula é instinto de um tímido bater de pálpebras, de um leve suspiro, não ofegante nem obstante, apenas, leve
E no fim de cada texto, quando penso que por ai pararam as velhas pausas mágicas que as vírgulas me causaram
eu percebo que sempre estarei me perdendo na reticências que eu mesmo criei.

silencio