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Oitentaecinco

Faz de conta que nasci agora e não sei do que o mundo é capaz
Se eu fosse o rei de todas as coisas, elas seriam lindas demais

Faz de conta que nasci do vento de todo absurdo
Que nasci da mágica de um encanto surdo
Que a gente é tudo o que nasceu pra ser

Faz do nosso conto uma verdade que ninguém contou
Se eu fosse a primavera, em nenhum outono morreria flor

Faz do nosso conto um absurdo lindo
E do absurdo um verso indescritível
Que só a gente nasceu pra escrever

Faz de nós um canto, uma voz branda que a tudo ensurdece
Se eu fosse a dura lenha, é só teu fogo que me anoitece

Um dia tudo vai me aquecer
Mas, faz de conta que é você quem faz
O meu coração confundir incêndio com amor demais

Prepare seu campo minado, pra que você, um dia
atravesse sem medo e, como nós, imune a minas

Ainda somos aqueles que sambam
Mesmo quando tudo está tão ruim
Se eu fosse o tempo das coisas bonitas, nada mais teria fim…

Ithalo Furtado

Aqueles felizes

Falta pouco, quase nada
um tanto de sala, uma mão de tinta
e mais cerâmica marfim
Quadros novos, filtro dos sonhos
os incensos, imagem de Cristo
e fim


Veja só onde chegamos, meu bem
lembra quando a gente nem pensava em nada?
Veja só, aquele é nosso quarto, meu bem
lembra quando ele só existia no papel do canto da mesa?


Reza a lenda que toda nova vida
é repleta de pedras e contas a prestar
mas, nós somos bem maiores que tudo
Nós somos aqueles felizes
que zombam de todos nas sessões de supermercado


Veja só onde chegamos, meu bem
lembra quando a gente era só um casal que tomava sorvete domingo?
Veja só, esse é nosso cantinho, meu bem
lembra quando o mundo era normal? Casa-faculdade-motel…


Tijolo por tijolo, a gente vai se tornando canção
vai sempre haver um sorriso quando o mundo for pesado demais
Nós somos aqueles felizes, meu bem
Aqueles felizes, meu bem
Aqueles felizes…


Aqueles marrentos
que quando tudo parece desabar
insistem que sempre haverá mais amor pra se dar



Ithalo Furtado

Doce Juventude

Solidão é um cais baldio
repleto de vãos navios sem tripulação
Diário de bordo: “Perdemos sonhos pelo caminho…”
Mas, não faltou coração

Solidão é uma armadilha
do peito ferido, dos apartamentos
Querido Diário: “Eu bem que tentei sorrir…”
Mesmo que sorrisos pequenos

Quando me olhou pela terceira vez
vi que eu era feito de nuvens
Cai em tentação e tentei mais uma vez
Só que dessa vez, faltou coração
Você sobrou, eu calei
Que se dane os heróis, eu sou fora-da-lei

Solidão é preguiça dos braços
injustiça dos sapos com a lua
Jesus, por favor, faz do luar o meu lar
me faz ébrio palhaço das tolices de amar

Solidão é um mantra diário
de quem um dia foi escudo de lã
É que Vinícius me diz tanta coisa
que qualquer outra me parece vã

Quando me olhou por cima do Ray-Ban
em plena Orla de Atalaia
Que doce juventude Deus te deu, menina
Só que dessa vez, era um samba-canção
naquela tarde RocknRoll que passei
Mas, que se dane os heróis, eu sou fora-da-lei

Ithalo Furtado