Arquivo da categoria: Crônica

Outro mar, novas ondas

Sinto falta das pessoas que não gostam de mim, essa é minha saudade mais verdadeira.

Sinto a dor das pessoas que não conheço, essa é minha compaixão mais verdadeira.

Sinto alegria quando recebo um sorriso, esse é meu retorno mais verdadeiro.

E quando te vejo? Eu sinto medo. E quando eu não te vejo?  Eu sinto mais medo ainda, pois esse é meu silencio mais verdadeiro.

Essa vontade deixou de ser saudade, e o calor cresceu meu frio. E tua presença trouxe o medo, que hoje aflora meu desapego. E o que era flor virou um bicho, mais esqueleto que andar.

É o sol vindo mais forte, fazendo aquele amor(dor) secar. Agora posso me embrulhar e ver meu peito descansar, na minha alma renovada e minha armadura mais listrada.

Se é o fim então porvir caminharei a outro mar para as novas ondas me trazerem um outro alguém para amar.

@Digi_Nanda

Os 20 objetivos de um sonhador

Depois do último fogo de artifício, da última taça de vinho, as promessas de reciclagem e esperança. Instantaneamente, crio uma lixeira imaginária para colocar todos os erros, rancores e fraquezas do ano anterior. Eu poderia ter feito isso em outubro ou novembro, mas, esperar até o fim do ano é uma tradição inerente de todo ser humano que possui todos os cisos.

“Que tudo se realize no ano que vai nascer”. Ouvir isso é como andar por uma ponte de lã e esperar que ela aguente o peso de nossa própria alma. Os primeiros dias precisam ser maravilhosos. Nada pode dar errado entre 1 e 10 de janeiro. Não pode chover no dia 3, ninguém pode morrer no dia 8. E é assim, brincando de ser Deus, que a gente trilha os primeiros passos de nossa nova vida temporal.

Agora parece ser a hora exata para o tempo fechar e começar a chover interrogações. Convencionou-se recomeçar a partir daquela tal meia-noite, então, vamos la: perdoe, reveja, relembre, renasça. Sentiu-se melhor esperando esse tempo todo para subtrair de seu mundo as coisas que não te encantam? Incrível é uma rolha de Champagne voar a ponto de conseguir dividir sua vida.

A gente amadurece e a maturidade nos traz uma sensação vazia de apoteose. Basta olhar para dentro de nós quando aconselhamos alguém. Basta olhar para fora de casa e enxergar nossos carros na garagem. Triste realidade: Não somos mais feitos de sonhos.

Por falar em sonhos, ontem encontrei um antigo caderno. Por entres páginas arrancandas e outras sofridas, havia uma com as seguintes anotações:

Os 20 objetivos de um sonhador:

  1. Conhecer o mundo inteiro do meu quarto;
  2. Abrir uma loja de doces;
  3. Comprar a discografia do Montenegro;
  4. Trocar menos palavras e mais olhares;
  5. Dar mais atenção ao que me silencia e me faz perder o fôlego.

Havia mais 15 coisas, em todas passadas um traço. Onde será que perdi todos esses outros sonhos?

Meu prelúdio de vida nova veio repleto de incongruências e trilhas montanhosas, estou em pé de guerra com meu infinito. Ainda não vi nada dos sorrisos que a tv nos injeta dezembro a fora. Meus sonhos estão dormentes e meus planos ainda parecem absurdos. A temporal vida passada não me parece um barco em pleno naufrágio, já que os mares que atravessei permanecem iguais. Continuo com os mesmos medos, com as mesmas dúvidas e a  com a mesma vontade de driblar o inevitável.

Meus cortes não fecharam e outros já se abriram em menos de uma semana depois do último fogo de artíficio, da última taça de vinho.

Ithalo Furtado

A Poesia de tudo

Amanheci rima. Acordei com a música por baixo das pálpebras que soavam notas primas no seu lento desabrochar. Com a alma em harmonia, um simples lançar de retinas meu bastava para tudo se encaixar perfeitamente. Nota por nota, a vida tratava de unir até mesmo os desafinados. A madeira, apaixonada, debruçou-se sobre o machado e o trigo implorou ao joio mais uma chance de perdição. Era a valsa descontrolada do encanto que regia aquela louca dança das coisas do mundo.
 
O cruel quebra-cabeça do universo dava face a suas peças, como Deus um dia fez com cada ser humano, ou, como pensam muitos, como cada ser humano todo dia faz com o Deus que carrega dentro do bolso lateral do Jeans ou pendurado no pára-brisas do carro. Às vezes penso que a minha fé vem da essência de um suvenir. Outras, que a força que vem do céu encontra pelo caminho certos guarda-chuvas de auto suficiência. Deve ser por isso que hoje amanheci com o coração em verso, para enxergar além das minhas próprias convicções. Na beleza. Na inconsciência.

Lentamente, como o nascimento de uma estrela, fui cortando pequenos fragmentos de ar que repousaram durante a noite inteira sobre o meu peito. Meus pés procuraram um apoio no frio azulejo e a minha cabeça ainda não havia voltado a tona do sonho que tivera. Fui traçando uma odisséia contra os acordes da preguiça até a mesa de café e percebi que as xícaras, os talheres, os pãezinhos…absolutamente tudo se abraçava, combinando frases, cores, finalizações de estrofes e até mesmo o sabor peculiar que cada boca absorve.

Sem a descartável necessidade de entendimento, percebi que teto e assoalho, retrato e moldura, telefone e silêncio e todos os outros atributos de um pequeno apartamento quase vazio e que abrigava um mundo inteiro, se fundiram para fazer acontecer a poesia de tudo. Até mesmo a água que saia do chuveiro quando tocava a minha pele era como se estivesse tocando o mais valoroso violino.

Os mapas de macarrão, os quadros pintados pela poeira nos cantos sujos de arte, os filmes produzidos pela memória das quatro paredes do meu quarto e até mesmo o livro escrito pelos espelhos que vez ou outra eu arriscava encarar. A cadeira, o colchonete, o porta-copo e tudo mais que lembrava monotonia e tinha o cheiro de rotina preto e branco. As gavetas sujas e sem graça onde eu guardei todo o resto de vida enlatada e todas as lembranças encarceradas que um dia a vida teve a desonra de me propor habeas corpus. Tudo, tudo mesmo, se amontoava em poesia.

Até que o belo secou a lágrima
Até que a alma negou o belo
Até que o medo adormeceu a alma
Até que nada mais restou além de um pobre verso em silêncio…

. Ithalo Furtado

O Moço da Foto

O moço da foto
Tem no riso, um veneno
Que eu não sei explicar

Ele carrega um mundo
Que você não conhece
Por detrás da promessa que não virá

O moço usa terno
E você com seus trapos
Ainda insiste em pensar

Que a beleza é exata
É honesta e sensata
É pura demais pra enganar

O moço que mora
No chão da cidade
Sem culpa de nada

E te olha nos olhos
Inflamando a esperança
Nas paredes pinchadas

O moço que é santo
E amanhece com o vento
Pelas calçadas cinzas

Às vezes invade a casa
Como se fosse um amigo
Como se fizesse parte da vida

Ah, se um dia eu tivesse
O poder desse moço
Será que toda gente se acostumaria

A ver na foto
O meu olhar de tristeza
Como o começo de uma nova alegria

. Ithalo Furtado

Refúgio

As coisas são tão simples que até
da medo de tão simples que são
Há quem se vista de outono
pra celebrar a solidão
Com lembranças secas que caem
dos galhos tortos da saudade
Implorei pelo teu frio
Quando implorar por teu calor era tarde

Mas, há quem prefira
Um pôr do sol particular
Inunda os olhos de brilho
E fascina almas com o olhar

No final do livro não se descobriu
Nem o Herói nem o Vilão da história
No final da vida todos nós somos heróis
Até pecados são motivos para glória

O que vim te mostrar
(É meu esconderijo)
Eu vim te mostrar
(Em meu último suspiro)
Venha pra cá
(Quando o mundo estiver difícil)
Ou só pra lembrar
Apenas pra lembrar de mim…

. Ithalo Furtado

Ao amanhecer

Ao amanhecer
Todos correm para quê?
Todos correm para ver quem chegou…
O estranho que sonhei
É alguém que quero bem
É alguém que sempre esteve perto sem saber…

Volto ao lugar que dormi
Mas, meus olhos não pesam
Meus olhos se negam a não ver o sol…
Volto sem nada no bolso
Feito um velho sem botas
Um velho que segue somente os seus pés…

Caio do décimo andar
Ou será que pairei pelo ar?
Será que estou flutuando
Há mais de mil anos no mesmo lugar?

Volto ao lugar que cresci
Mas, não há mais lembranças
Só existe a certeza de que fui feliz…
Volto sem nenhuma vitória
Chorando por tudo
Sorrindo por que nada sou…

Volto pra casa
Essa é minha história
Todo homem precisa renascer
Volto por todos os dias
Em que cai de joelhos
E Deus não me ouviu… 

. Ithalo Furtado

Ato

Meu espetáculo é a vida que me deram
Meu palco é o mundo que me disseram ser perfeito
Meu show é o dia a dia
Meu vôo é o sopro e a falta de ar da melodia

Minha vitória é o ar nos meus pulmões
O amor, a calma e todas as outras sensações
Minha perfeição é o doce tom do meu canto
destilando a arte e a poesia em cada pedaço raro de encanto

Meu céu pode ser o chão que tanto me sustenta o peso
Cada palavra que eu falo, vale mais o meu silêncio
Tudo que é mudo é mais belo
Perfeitos versos em olhos intraduzíveis

Soma-se o infinito ao estranho, é o coração do ser humano
Indescritível senso, mendigos a procura de berço
Cada gesso, cada gesto, o incenso que perfuma o universo inteiro
Para nós é tudo tão imenso, pra Deus até parece um brinquedo

Entre tudo o que buscamos e o mundo que queremos
Existe um canto púrpura a luz de velas
Sem sombra de dúvidas
Sem o sabor da certeza
Sem prece ou veneno, sem poesia
Apenas histórias de um velho que se dizia Deus

O Palhaço é o mágico da vida
O portador do vírus
O curador do nada
Desembarque e Despedida
Poeta das frases fugídias e caladas

Quem tem as chaves loucas da existência?
Eu tenho as portas, você a resistência
O céu é um sonho, o chão é o que nos faz voar
Com ou sem asas de cera, será?

. Ithalo Furtado