O Passageiro

Na hora, lembrei de um primo que dizia ouvir vozes quando andava sozinho em seu Vectra azul. Estranho. Sim, porque antes de entrar no carro, antes mesmo de pensar em abrir a porta, era nítido que não havia qualquer ser cristão fazendo análise com o nada sobre sua claustrofobia por sobre aqueles bancos já maltratados do meu velho Monza.

A angústia, então, de que me vinha? De muletas ou em um trem bala? Me peguei pensando se ela demorou demais a chegar na minha vida ou se naquele exato instante ela veio rápida demais. Então, muletas ou trem bala? Que tolice a minha perder tempo com a velocidade das coisas, como se a vida trabalhasse dentro da nossa ansiedade. Pensei no someliê de logo mais, que vinhos traria pra mim se eu conseguisse chegar ao final da rota que, cuidadosamente, tracei na minha cabeça que faria assim que terminasse meus afazeres?

Pensei nas moças pintadas da 15ª esquina mais a frente. Que gestos elas fariam e que obscenidades usariam dessa vez quando eu passasse devagar para arrancar suas provocações tão cheias de maquiagem, escondendo uma face de dor e necessidade? Pensei nas pessoas que trafegam nas calçadas, pensativas e engraçadas, que, quando observadas de longe, parecem dignas de uma comédia da vida real, ainda mais na cidade, esse cinema cheio de filmes sem final feliz.

 

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