Engrenagens do Coração

– Eu te amo – Um leve olhar de baixo pra cima, um sorriso meio tímido no rosto. Espera.
– É. Eu também. – O olhar mais brilhante e um sorriso mostrando parte dos dentes brancos e bem cuidados. Ele sempre admirou os dentes perfeitos que ela tinha. Certeza.

Passam-se 10 minutos.

O garçom, um homem baixo e meio rechonchudo, traz o pedido e faz uma brincadeira sem muita leitura por parte do casal. A mesa é servida, os dois se olham mais uma vez e trocam um singelo beijo.

Risos. Pequenos, porém, verdadeiros. Ao menos para aquele momento.

Em um segundo seu, quase concorrente ao dela, lembrou de si. Voltou sua atenção ao hambúrguer de fritas, sem salada. Ele adorava fritas e nunca apreciou muito o sabor das coisas saudáveis.

Adorava almoçar besteiras de vez em quando, em companhia de uma amiga. Amiga não. Era quase uma parte sua.

O hambúrguer estava ótimo. Logo na primeira mordida, sujou sem querer o cantinho da boca de maionese. Imediatamente, levou a mão até limpar tudo de uma vez só.
– Não faça isso… – Ela parecia mais envergonhada que furiosa.
– Desculpa, amor. – Ele respirou um pouco fundo.
– Qual o porquê dessa respiração ofegante?
– Não é nada…

E, em um instante, tudo pareceu sumir, aos poucos.

Aquele rosto lindo e sorridente do início da noite, aquela perfeição que ele tanto descrevia aos amigos, aquelas promessas de um dia bom, os problemas da semana que ele esquecia quando molhava seus lábios com o suave toque dos lábios daquela que ele sempre chamou de “o amor da minha vida”.

– Vamos embora, por favor… – A vergonha se misturava a fúria e ela já havia perdido a graça de tudo. Ela sempre, sempre o acusou de tirar a graça das coisas, de deixar a relação pesada, de não aproveitar o instante. Sempre. Sempre. Sempre.

Silêncio.

– Você vai fazer assim? Odeio quando você fica calado.

“Mas, eu não estou calado, engano seu. Meu coração grita, implora liberdade. Meu coração, sempre acusado de egoísta, é tão pobre de amor próprio. Eu, realmente, só penso em você.”

– Opa, chegou a conta!! – O garçom brinca e não é correspondido.
– Aqui, valeu cara…

Entre moedas e cédulas, o garçom vai atender outra mesa com o mesmo bom humor de sempre. “Olá, pessoal, boa noite, o que vão querer hoje? Sugiro…”

E ele não ouvia mais nada.

“Não faça isso!”
“Egoísta!”
“Você não sabe aproveitar as coisas!”
“Tenho saudade de quando era bom!”

Os olhos dela eram como um livro que ele lia todas as noites. Aquele capítulo, tantas vezes revisado, nunca havia sido reescrito do jeito certo. Planos demais e carinhos de menos. Sonhos demais e de repente até os sonhos se esvaiam.

Já no carro, mais silêncio. Seu balanço, pela estrada mal asfaltada, aumentava o clima de tensão. Ele dirigia com a certeza de um golpe samurai. Ela, encostada no banco, rosto fechado, olhos baixos como se tivesse sono.
– Tô tão cansada disso, sabia?
– Também, amor. Também. Não queria que isso tivesse acontecido.
– É, você nunca quer mesmo – Ela falava com a voz baixa, quase um sopro.

O carro pára em frente a uma casa simples e bem cuidada, aquela casa com cara de família e jeitinho de lugar aconchegante.

Ela desce, ele desce. Ele tenta, mas, tentativas são inválidas agora.
Ela da as costas, nega o beijo, o olha com tristeza.
– Até amanhã, então…
– Até amanhã, amor. Eu te amo, viu?! Isso, nunca, nunca mais vai acontecer. Eu juro! – Uma lágrima…
– Também te amo… – Acompanhado de um leve beijo na testa. Não há lágrima alguma…

Ele a abraça com vontade. Ela o abraça com a leveza que tanto fez falta aquela noite.

A lua some em meio às nuvens em trânsito. O relógio acusa o inicio da madrugada. O carro some no curto horizonte da rua.

Um choro assustador, de quem mede sua vida pela razão morta das coisas.

Já é tarde e todos adormecem, até os que jamais acordaram.

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