O Peso da Palavra

Na verdade, não sei
Nem Sartre, nem Quintana, nem minha prima de cinco anos de idade
que hoje de manhã escreveu seu nome pela primeira vez corretamente
Nem o velho poeta na mesa de um bar
nem o dono do mesmo que sofre
por só saber lidar com números, vozes bêbadas
e com os tic-tacs do relógio da farmácia ao lado
Até por que, ninguém
nenhum ser que sobreviva a sobrevida humana
tem a precisão exata ou mesmo cálculo perfeito
Se é mais pesada que uma luva
Se é mais leve que um viaduto
Se é reciclável como os nossos defeitos
Se é plástica como o nosso sorriso
exata como o fogo que nos veste por dentro
Não, não se sabe ao certo
Não é como medir a superfície de um planeta ou a profundidade de um rio
Não é como diferenciar um brigadeiro de um pedaço de madeira
Nem como dobrar a direita na próxima avenida
a procura do caminho mais curto até o veneno de mais um dia de trabalho
Seria quase uma tentativa divina definir a longevidade
dessa necessária, porém, apática e doentia busca
como o Cisne que cisma em ser Dragão do próprio encanto
e por total desencanto, se esvai da beleza, distante, sereno e vazio
Mas, eu sei, meus dedos doem ao tocar as letras
Eu sei que meus dedos, eles sangram ao tocar as letras
Eu sei que meus dedos se acovardam ao tocar as letras
Sei que (o que mesmo que sei?)
Ah!
Eu sei que meus dedos sentem-se insuportáveis sobre o papel
ao tentar levantar cada uma dessas letras com um pouco de cada sentimento meu
com um pouco da minha essência momentânea, mesmo sabendo que
entre concepção e metamorfose
eu prefiro ser as duas, prefiro me reescrever a cada fio de segundo como um parto
metamorfoseando-me no seguinte, como um degrau

Quais os sintomas da palavra febre?
Quais os tormentos da palavra angústia?
Quais os segredos da palavra mistério?
Quais as feridas da palavra amor?
E saudade?
Será que a palavra saudade
sente falta da palavra anterior
ou se mantém atenta
as sobras ilegíveis da palavra de quem
comprou uma borracha e tentou descobrir o peso da palavra rancor?

De fato, a dúvida permanece sóbria em cada coração
A dúvida remaneja a certeza de volta ao seu lugar de origem: a contestação
É de lá que surgem as teorias, as definições 2.0, os ditados populares
os dizeres dos antigos, as novas regras da gramática
as novas maneiras de se cumprimentar na rua e todas as guerras intelectuais
que se possa imaginar
Somos a explosão de toda sobra e ausência de silêncio

É preciso mais de sete sentidos, aliás, é preciso ter milhões de sentidos
para começarmos a compreender o porquê que cada palavra carrega tanto peso
Será delírio? Será filantropia?
Será um mundo mais bonito ou será que já somos o mais perfeito une versos? 
E onde estará escondido o peso
do verbo, do pronome, da consoante, do hiato, do palavrão?
Onde estará escondido todo caminho e todavia, por onde passo?
Recordo-me da cicatriz que teima em costurar-se a cada ferida aberta na palavra sonho
(Existe alguma regra gramatical para descrever o meu?)
O verso é livre e não tem perdão

A palavra pesa o que minha alma não consegue suportar

palavra

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Uma opinião sobre “O Peso da Palavra”

  1. O poder da palavra carrega consigo a cumplicidade de uma vida,
    muitas vezes bem vivida,
    muitas vezes medíocre diante das adversidades.
    Retalhar-se diante de uma frase mau construída,
    negar-se depois de um perído mau estruturado,
    Seria como se passássemos por um turbilhão de párgrafos,
    sem nexo, sem direção, mas que por fim,
    nos trouxesse uma lucidez sem fim.
    Parabéns pelo site.

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